quarta-feira, 15 de julho de 2015

Os Morcegos da Capela


                                                                                 Chico Acoram Araújo*

            Certa feita estava eu, como de hábito, a fechar a janela de um dos quartos da minha casa, logo após a fuga dos últimos raios solares daquele calorento dia do mês de setembro. Contudo, através dessa janela que dava para o pequeno quintal da casa, ainda se via alguns ralos clarões reluzentes no poente, ao longe, entre as nuvens. Contemplei aquele cenário; um ar de felicidade e melancolia me abateu. Ao sair, ouvi um inopinado ruflar de asas no forro do recinto. O ambiente estava escuro.  Deduzi que fosse algum inseto ou um pequeno pássaro. Acendi imediatamente a lâmpada. De imediato, não vislumbrei o que voava sobre minha cabeça, pois o bicho se deslocava, sem bater nas paredes, em uma incrível velocidade. Só depois de um olhar atento, identifiquei que era um Chiroptera, conhecido vulgarmente como morcego, ou andirá ou guandira como os índios o denominavam em língua Tupi Guarani; o único mamífero que voa na face da terra, e possuidor de um extraordinário sentido da ecolocalização, que não é nada menos do que um biossonar ou orientação por ecos, que utiliza para orientação, busca de alimentos e comunicação. Reabri a janela, pequei de uma vassoura, pus o inusitado hóspede para fugir; desapareceu na noite já escura.

          A presença daquele pequeno mamífero voador, possuidor de mão e asa, daí o nome Chiroptera, de origem etimológica nos respectivos termos gregos cheir e pterón, que significa mãos transformadas em asas, me fez viajar, pelo túnel do tempo, para um determinado período de minha infância, na periferia de Barras do Marataoan. Era final dos anos cinquenta. Com cinco ou seis anos de idade, minha mãe cuidou logo de me colocar em uma escola. A única existente no bairro funcionava em uma antiga capela; atualmente igreja da Paróquia de Santa Luzia, no Bairro Boa Vista. A escola funcionava de forma precária e improvisada. A sala de aula era o grande salão da capela. Os longos bancos de madeira, onde os fiéis se sentavam nos dias de missa e novenas, serviam de carteiras escolares para os alunos. Uma bondosa senhora, de nome que não recordo agora, era a professora da escola; aliás, a única para ensinar cerca de 30 ou 40 alunos que se dividiam em duas turmas, sendo a primeira dos meninos iniciantes, e a segunda dos mais adiantados. O corredor que separava os bancos da igreja era o divisor das duas salas de aulas. O material escolar da criançada resumia-se em apenas um caderno de caligrafia e uma caneta-tinteiro. Os poucos livros, provavelmente pertencentes à professora, eram utilizados de forma coletiva. Hoje, creio que a metodologia pedagógica aplicada naquele rudimentar estabelecimento de ensino era positiva, pois quando minha família mudou-se para Teresina, em certo janeiro de 61, eu já sabia ler e escrever, razão esta que me fez ser promovido para uma série imediatamente superior, ou seja, para o “Primeiro Ano B” do Grupo Escolar João Costa, localizado na Rua Jônatas Batista, ao lado do Estádio Lindolfo Monteiro, no centro da cidade. Isso é uma outra história. Talvez, em outra oportunidade, poderei fazer uma dissertação sobre o assunto.


            No primeiro dia aula, ainda cedinho da manhã de uma provável segunda-feira, acompanhado da minha saudosa mãe, entrei na escola, ou melhor, na capela, onde já se encontravam a professora e mais alguns alunos. A mamãe bastante alegre me apresentou à mencionada educadora. Todo acanhado, dirigi-me para uma improvisada carteira escolar que ela apontara com um gesto de mão. Minha mãe me observou, e sorriu; voltou para casa, feliz. Logo depois, as duas salas de aula, separadas por uma parede invisível, estavam lotadas. A aula teve seu início. Não prestei muita atenção ao que a professora falou no começo, pois meus olhos estavam fixos no teto da capela. Boquiaberto, descobri vários morcegos pendurados, de ponta-cabeça, nas ripas do telhado. Estavam quietos, adormecidos. Voltei minha atenção para a professora. De vez por outra, olhava para aqueles engraçados ratos voadores.  Flagrei, algumas vezes, que eles também nos observavam, com seu olhar de olhos cegos, brilhantes e misteriosos. A capela, além de escola, também servia de dormitório diurno para aqueles pequenos animais, saindo os mesmos apenas durante a noite para se alimentarem de frutos, sementes, folhas, néctar, pólen e pequenos vertebrados. Acho que não se importavam com a presença dos alunos. Eles faziam parte do cenário escolar; tornaram-se indiferentes.


            Retornando-me dessa viagem de saudosas lembranças de criança lá do meu torrão natal, meus pensamentos voltaram para o hóspede que minutos atrás tomou rumo ignorado no breu daquela noite. Passei um bom tempo matutando porque muitas pessoas têm concepções fantasiosas sobre os morcegos, que geram comportamentos hostis e estimuladores de atitudes agressivas a esses animais tão importantes para a natureza. Sabe-se que quando há uma grande colônia de morcegos em uma região, estes facilitam o controle de peste, pois eles são predadores naturais de insetos. Além disso, os morcegos são importantes na polinização, pois estes ao visitar as flores para consumir néctar, acabam por transportar o pólen de uma flor a outra da mesma espécie, ajudando assim a reprodução das plantas visitadas. Da mesma forma, eles são responsáveis pela dispersão de sementes durante o ato de pegarem os frutos de diferentes plantas para comerem e, ao fazerem isso, ingerem ou carregam as sementes, dependendo do tamanho.


            Quanto aos mitos e famas dos morcegos, fiz uma pesquisa na Internet onde descobri algumas curiosidades sobre a nossa personagem agora em comento. Com relação aos vampiros, os morcegos estão impregnados em nossas mentes, pois os vampiros transformavam-se, às vezes, em morcegos, e saíam voando por aí, conforme mostram os filmes do gênero. Isso porque a lenda dos vampiros é muito conhecida e difundida em todo o mundo. O filme mais visto sobre vampiros foi aquele baseado na lenda do Conde Drácula, um romance escrito em 1897 pelo autor irlandês Bram Stoker. Daí muitos outros filmes foram produzidos e vistos no mundo inteiro. Dizem que a associação dos morcegos com essa lenda deve-se a três espécies de morcegos, sendo a mais conhecida a espécie do morcego-vampiro, encontrado no México e América do Sul. Importante salientar, que esse tipo de morcego não chupa, e sim lambe o sangue que sai da mordida desferida por ele. A outra identificação dos morcegos com os vampiros é o fato de esses animais terem hábitos crepuscular e noturno. Algumas espécies de morcegos gigantes são encontradas na África, Oceania e Ásia, que chegam a dois metros de envergadura, são conhecidas como “raposa-voadora”. Quanto ao mito de os morcegos serem cegos deve resultar da imaginação de que estes usam exclusivamente a ecolocalização. Pelo contrário, os morcegos têm uma visão excelente. A ecolocalização, ou o sexto sentido, vamos assim dizer, é um recurso adicional que os morcegos possuem.


            Para finalizar, transcrevo a seguir uma interessante fábula criada pelo grego Esopo que conta a história envolvendo a nossa personagem desta crônica: o enigmático morcego. A princípio, imaginei não existir nenhuma fábula com o protagonista aqui evidenciado. Antes, porém, creio ser oportuno dizer quem foi Esopo. Segundo a enciclopédia Wikipédia, ele foi escritor da Grécia Antiga a quem são atribuídas várias fábulas populares. A ele se atribui a paternidade das fábulas como gênero literário. As suas fábulas serviram como base para recriações de outros escritores ao longo dos séculos, como Fedro e La Fontaine. O fabulista grego teria nascido no final do século VII a.C. ou no início do século VI. O local de seu nascimento é incerto.

Eis a história do fabulista grego Esopo:


O Morcego e a Doninha

Um morcego desajeitado caiu acidentalmente no ninho de uma Doninha, que, com um bote certeiro o capturou.
Atemorizado, o morcego pediu que esta lhe poupasse a vida, mas a Doninha não queria lhe dar ouvidos.
“Você é um rato, ela disse, “e eu sou por natureza inimiga dos ratos. Cada rato que pego, evidentemente, me serve de jantar, essa é a lei.” “Mas, a senhora veja bem, eu definitivamente, não sou um rato!”tentou explicar o infeliz Morcego. “Veja minhas asas. Você já viu um rato que é capaz de voar? Claro que sou apenas um tipo de pássaro, de uma variedade, podemos afirmar, um tanto exótica. Por favor, me deixe ir embora!”.
A Doninha, olhando melhor para sua vítima, concordou que ele não era um rato e o deixou ir embora. Mas, alguns dias depois, o mesmo atrapalhado Morcego, cegamente, caiu outra vez no ninho de outra Doninha.
Ocorre que Esta Doninha era inimiga declarada de todos os pássaros, e logo que o tinha em suas garras, preparou-se para abocanhá-lo.
“Você é um pássaro,” ela disse, “por isso mesmo o comerei!” “O que?” Exclamou o Morcego, “eu, um pássaro! Isso é quase um insulto. Todos os pássaros possuem penas! Cadê minhas penas, você é capaz de vê-las? Claro que não sou nada além de um simples rato. Tenho até um lema que é: Abaixo todos os Gatos!”
E o Morcego teve sua vida poupada pela segunda vez.
Moral da história:
1.     Sábio é aquele que é flexível, que sabe analisar a situação e agir de acordo com as circunstâncias.
2.     O sábio aprende a tirar do problema uma solução incapaz de criar outros problemas ...


*Chico Acoram Araújo é contador, funcionário público federal, poeta bissexto, contista, cronista e futebolista aposentado.               

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