sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Missiva Endereçada a Meu Pai

Família Araújo - Mamãe, nora, netos, esposos e esposas de netas(o) e bisnetos(uma a caminho)



José Pedro de Araújo Filho

Levei muito tempo, meu querido, para escrever algumas linhas sobre a sua pessoa, pois, sempre que começava algo assim, a emoção se abatia sobre mim com a força de um tornado e dominava tudo com força irremovível. E isso se deu por um longo período. Somente poucos anos atrás consegui super as emoções e dei início à redação de algumas passagens sobre o senhor e chegar até ao fim do que redigia, à custa de muita fadiga. Assim aconteceu com a crônica “Atravessando o Parnaíba no Lombo da Maria Fumaça”, ou mesmo o texto “Um Exímio Contador de Histórias”, ambos publicadas no blog Folhas Avulsas. Hoje, as lembranças continuam muito fortes, mas já consigo, se não acostumar-me com a sua perda, pelo menos conviver com mais tranquilidade com isso. Não foi uma tarefa das mais fáceis, como pode ver, mas consegui avançar desta vez e conclui o que me propunha a fazer. Hoje, dia do seu nonagésimo aniversário de nascimento, (completado nesse dia 17/02), envio-lhe a presente missiva para lhe dar conta de como andam as coisas por aqui.

E começo dizendo que a família que aqui deixou está em franco crescimento. Desde a sua partida para a glória, alguns netos nasceram, e os primeiros até já constituíram suas próprias famílias, e também geram os seus primeiros bisnetos. Oito no total, para ser mais preciso. Seis dos quais do sexo feminino, e, diferentemente da sua própria prole, na qual havia uma supremacia masculina, agora nos veio uma ampla maioria de mulheres. Pra exemplificar como este crescimento está sendo constante, basta dizer que já temos mais um, ou uma, a caminho. De forma que o que começou com cinco, já são vinte e oito, e ainda esperamos por muitos mais. Outro fato interessante nisso, é que todos os seus bisnetos residem no seu estado natal, fizeram o caminho de volta, caminho que palmilhaste lá pelo distante ano de 1951.

Do mesmo modo, como era da sua vontade, todos os netos, com exceção de um lindo rapazinho que nos veio com a formatação um pouco diferente dos demais, mas que é um dos mais queridos de todos nós, os outros cursaram ou cursam uma faculdade. O esforço que o senhor empreendeu para nos enviar para a capital para que pudéssemos continuar os estudos valeu demais. Não restam dúvidas que alcançamos um patamar diferente do que o que nos estaria reservado se permanecêssemos no interior, e ao seu gosto. Estão todos em busca do seu próprio lugar ao sol também e com boas perspectivas.

A sua marca continua sendo forte e respeitada; quanto ao seu legado, tentamos honrar e conferir-lhe novas vitórias. Mas, não posso negar, a sua falta é sentida a cada dia que nasce, a cada manhã que nos recebe com raios solares brilhantes e aquecedores. Tentamos conviver com isso da melhor maneira possível, mas, muitas vezes, sucumbimos às nossas fraquezas e nos abatemos muito para, em seguida, levantar a fronte e seguir adiante com altivez e denodo, como era do seu feitio também. Não repare nisso, pois nos acostumamos a tê-lo como nosso comandante, abrindo caminhos e facilitando as nossas vidas. Foi necessário, assim, que nos reinventássemos como pessoas, e passássemos a abrir as nossas próprias picadas nessa selva difícil que é o mundo. Estamos conseguindo, pois, um Araújo jamais baixa a fronte e se dá por vencido.

Acredito que o senhor ficaria satisfeito com os rumos que demos às nossas existências. Acredito mesmo que o jovem que saiu do sertão do Piauí para se estabelecer naquele interior de difícil acesso, no sertão mais profundo do Maranhão, àquela época também em começo de ascensão como município recém-instalado, ficaria satisfeito com o que conseguiu fazer com muita determinação, coragem e honestidade. A propósito disto, em certo município piauiense, testemunhei um fato inusitado - e até mesmo exagerado e de muito mau gosto – levado a cabo por um pai orgulhoso da família que constituiu: na parede frontal da sua casa, mandou constar em letras em caixa alta e devidamente esculpidas na argamassa, o nome de cada um de seus filhos, a sua formação profissional e o cargo que ocupava. Estava lá, desenhado no reboco, a marca da sua própria vitória. Orgulhava-se aquele homem de ter conseguido aquele feito notável para uma família constituída de tantos filhos e em local tão ermo. Feliz e realizado, queria ele que todos tomassem conhecimento das suas lutas travadas e vencidas. Como já afirmei acima, achei naquele momento algo de extremo exagero e uma ostentação desnecessária. Depois, quando os meus próprios filhos começaram a vencer as suas próprias batalhas, divulgava os feitos alcançados por eles aos amigos com desusada paixão e orgulho. E acredito mesmo que tivesse coragem suficiente para estampar o nome de cada um deles, além das suas glórias, na parede frontal da minha casa, não estivesse ela escondida por trás de um muro.

Obviamente, isso é apenas uma forma de lhe dizer o quanto estamos orgulhosos e agradecidos com o que Deus nos tem proporcionado. E continuamos batalhando dia-a-dia, mês-a-mês, ano-a-ano, para consolidar esses ganhos. Essa é outra coisa que aprendemos com o senhor: nunca esperar que as coisas aconteçam por si só; que a providência nos dê de mão beijada, e de graça, tudo o que almejamos. Vamos atrás das nossas conquista com ardor, mas sem açodamento, sem pisar em ninguém, e sem desejar o que é do próximo, como sempre nos ensinavas ao enunciar a passagem bíblica em que o rei Acabe desejou e tomou para si a vinha de Nabote.

Os tempos por aqui estão difíceis. O mundo está cada vez mais competitivo, e nesse aspecto, mais injusto também. Mas, vamos remando o nosso barco sob o comando da nossa timoneira que aqui ficou e tomou nas mãos a liderança: a nossa mãe, a sua venerada esposa, já agora um pouco alquebrada e afligida por doenças próprias da idade, mas ainda com muita fé e confiança no Nosso Senhor e no futuro. Sob a sua liderança vamos seguindo sobranceiros.

Vou encerrar dizendo que gostaríamos imensamente que estivesse por aqui para festejarmos juntos o seu aniversário de 90 anos. Exatamente no dia em que uma de suas bisnetas completa o seu primeiro mês de vida.  Seria a glória suprema. Mas, respeitamos e glorificamos os desígnios de Deus, mais um dos seus ensinamentos. Então, até o nosso próximo encontro.


Com amor.


Do seu filho mais velho.

4 comentários:

  1. Chico Acoram Araújo21 de fevereiro de 2017 16:59

    Dr. Araújo,

    Confesso-lhe que fiquei muito emocionado ao ler essa belíssima crônica em homenagem ao seu pai, Sr. José Pedro, exemplo de pai, esposo, cidadão e cristão.
    Também gostaria de escrever algo semelhante em alusão ao meu pai Francisco, mais conhecido como Chico Maroca, evidentemente não com essa maestria de grande romancista e cronista que lhe peculiar. Quiçá algum dia; quem sabe!
    Parabéns e um grande abraço.

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    1. Obrigado, Chico Carlos. Sem dúvidas, foi um homem de incontáveis virtudes. A sua falta me deixou o sentimento de que a minha criação ficou inconclusa. Conheci o seu pai e sei também do homem excepcional que foi. Um forte abraço.

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  2. Muito bem elaborada sua cronica caro amigo Pedro araujo vc esta de parabéns continue sempre assim com suas ideias inspiradoras e emocionante um grande abraço 👏

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    1. Obrigado amigo,
      o estímulo de vocês é o que faz tentar!

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