segunda-feira, 8 de maio de 2017

O GPD E A PAUSA PARA O LANCHE




José Pedro Araújo

Os “recuerdos” aqui são de um período que me trouxe muitas alegrias, daí está sempre rememorando aqueles dias. Refiro-me ao meu tempo no Ginásio Presidente Dutra. Como já expus também, o prédio em que funcionava o velho GPD ficava na esquina da Praça do Mercado, e de frente para a mercearia do Machadinho. Naqueles tempos não tínhamos no Curador as tais lanchonetes com banquinhos altos, paredes revestidas com azulejos e, muito menos, os tais sanduiches x-tudo, invenção americana que se espalhou pelo Brasil com rapidez e que, parece, veio para ficar, assim como o hábito de se comer pizza ao modo italiano. Tínhamos que nos virar para conseguir algo para saborear no horário do recreio. E nos virávamos bem, como veremos a seguir.
Em frente ao colégio, como já afirmei, ficava o Bar e Mercearia do Machadinho, com um grande estoque de bebidas, mas nada para um frugal lanche, a não ser balas. Ai surgiu um sujeito que não me recordo o nome, que começou a vender laranjas na calçada da mercearia. E a procura passou a ser intensa, pois o dito homem descascava as laranjas com a maestria de um mágico, Fazia isso com uma faquinha muito amolada e muito gasta de tanto ser afiada. De um saco repleto até a boca, ele retirava laranjas com a casaca tão amarelinha que mais parecia gema de ovo. E como eram doces! Por preços módicos, conseguíamos chupar umas três ou quatro delas em substituição aos lanches mais elaborados. Grande era a aflição para conseguirmos comprá-las antes que a campainha nos chamasse de volta para sala de aula, tal a quantidade clientes em volta do homem. Grande também era a gritaria, portanto. Quero uma, quero duas, quero três! Cheguei primeiro, moço! Rápido que a campainha já vai tocar! Tal gritaria chamava a atenção de quem passava por ali e contemplava o aglomerado que mais parecia um formigueiro humano. E o homem ali, com a sua incansável faquinha trabalhando aceleradamente e sem cessar. E como trabalhava rápido o vendedor de laranjas!
Quase encostada ao prédio do colégio, residia Dona Ana, a zeladora do ginásio, que logo vislumbrou a possibilidade de ganhar “um extra” explorando a fome daqueles jovens na idade em a que a gula é companhia constante. E passou a dita senhora a vender café com bolo frito. Fez sucesso imediato. Figura queridíssima dos alunos, Dona Ana notabilizava-se pelo jeito carinhoso com que se dirigia ao alunado, sempre tratando com grande desvelo a todos indistintamente. Mas, o “buraco aqui já era mais em baixo”. A conta já era um pouco maior e, portanto, não era apropriada para todos os bolsos. Criativa e atenta, logo a bondosa senhora apareceu com uma linguiça frita de encher os olhos de gulodice, e a boca de saliva. O produto era mais caro, mas era também uma delícia. De modo que, sempre que entrava algum dinheirinho a mais na carteira, era para a “lanchonete” da caridosa senhora que eu me dirigia.
Não demorou para um espertinho imaginar que poderia pendurar a conta no prego mais alto da velha casa. E não é que a bondosa mulher aceitou! Também consegui um crédito com ela, mas não exagerei. Sabia que teria que pagar do mesmo jeito! Todavia, acredito que muita gente deve ter deixado o crédito em aberto. Havia muitos que exageravam no consumo somente porque saia tudo fiado.
Nos dias de pouco dinheiro no bolso (quase todos), voltava ao homem das laranjas amarelinhas e o meu lanche do intervalo das aulas era aquele. Empolgado com o florescente comércio que ganhava clientes a cada dia, o homem apareceu certo dia com uma maquininha de descascar laranjas. Era uma tecnologia muito adiantada para a nossa época e logo chamou a atenção de gente que nunca ia até ele para obter alguns frutos. Esperto, o homem levou um filho para operar o tal engenho. Ele continuou utilizando a sua faca amolada, coisa que fazia com muita competência. Depois, com o aumento da clientela, trouxe a mulher: porque perder clientes, se o período do recreio era tão pequeno?
Nessas horas a animação tomava conta da rapaziada, e as brincadeiras iam se sucedendo, até que um indivíduo menos escrupuloso achou de inventar uma guerra com as “chupas” de laranja. Virou a brincadeira de todos os dias. Naquele curto espaço de tempo travavam-se verdadeiras batalhas com os bagaços das laranjas. E isso, naturalmente, trouxe alguns entreveros sérios também, uma vez que sempre havia alguém que não aceitava a tal brincadeira. E, num desses dias, estávamos nós a brincar com esse tiroteio indiscriminado, quando um colega me acertou um bagaço que me deixou a camisa toda suja. Atirou e correu, pois a campainha acabava de tocar chamando o pessoal para as salas de aula.  Meu agressor subiu os degraus da calçada e já ia entrar pela porta do colégio quando eu arremessei nele a laranja que mal havia iniciado a chupar o seu suco. Antes de contar o resultado disso, preciso fazer um esclarecimento: o diretor e dono do GPD era o juiz da cidade, Dr. José de Ribamar Fiquene, figura respeitada, tanto pelo posto que ocupava, quanto por imprimir a ordem com mão de ferro. Impunha respeito, poderia afirmar.
Pois bem, voltando à nossa estória, o meu agressor me atingiu e correu. E já estava quase entrando pela porta do colégio quando arremessei contra ele a laranja que ainda estava cheia do delicioso caldo. E nesse momento, em decorrência da algazarra que se fazia lá fora, saia pela porta o diretor do colégio para verificar o que acontecia. A laranja quase cheia que eu havia arremessado atingiu o homem exatamente no rosto. O resultado imediato foi que um silêncio profundo se estabeleceu em meio à garotada. Dava para se ouvir a minha respiração ofegante a dezenas de metros de distância. Todos aguardavam o que poderia me acontecer. O agredido se utilizaria do cargo de diretor ou da função de maior autoridade judiciária do município para responder à agressão?
Dr. Fiquene era um homem de gestos graves, mas afáveis. E quase nunca perdia a pose honorífica, sempre em “respeito à liturgia do cargo”, como diria um ex-presidente da república muito conhecido dos maranhenses. Deste modo, permaneceu ele impassível, com gesto senhorial grave, lá no alto da calçada. E os alunos, qual ovelhas em direção ao aprisco, foram entrando no colégio, um por um. Fiquei sozinho no meio da rua aguardando pelo que viria. Irrequieto, logo tomei a decisão de me dirigir ao diretor para pedir-lhe desculpas e me retratar pelo acontecido. Mas, mal havia começado as minhas evasivas vênias, fui instado suavemente pelo juiz a entrar e lhe aguardar na diretoria.
Para não ser muito prolixo, digo mais apenas que ele, depois de alguma admoestação, determinou que eu ocupasse, por quinze dias, o meu horário do recreio a escrever a frase: “nunca devo travar brincadeiras pesadas com meus colegas em horário escolar”. A punição foi menor do que a que eu imaginava, pois cheguei a pensar em uma expulsão, pura e simplesmente. Mas, se a punição não foi muito severa, o resultado dela foi devastador: tive que aturar, diariamente, e por quinze dias, as brincadeiras dos meus colegas ou a olhadela das garotas quando passavam para o recreio e, consequentemente, para o lanche. O resultado do exercício para trazer de volta o meu bom comportamento, foram dois volumosos cadernos cheios com a miserável frase que parece que nunca mais vou esquecer.
 O lanche da Dona Ana, juntamente com as laranjas doces do descascador veloz, também ficaram para sempre na minha memória.

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