quarta-feira, 18 de março de 2015

O MASSACRE DO ALTO ALEGRE



Alto Alegre era uma comunidade rural à época pertencente ao município de Barra do Corda, pequena e desconhecida no início do século XX. Perdida no interior maranhense, ficaria conhecida, naquele inicio de século, no mundo inteiro em decorrência de uma tragédia de proporções monumentais deflagrada por índios da nação Guajajara.
Poucos anos antes, exatamente pela ocorrência de muitas tribos indígenas na região, fora o local escolhido pelos Frades Capuchinhos para a instalação de uma missão jesuítica e um colégio interno. De altíssimo nível para os padrões locais, e à falta de outro melhor também quanto à localização, o internato logo chamou a atenção das famílias abastadas do interior maranhense. Acorreram para lá filhas das melhores famílias, normalmente meninas ainda na pré-adolescência.
Mas essa história teve início anos antes, quando o governo maranhense estabeleceu contato com a Ordem dos Capuchinhos italianos, estabelecida na região da Lombardia, para implantar um trabalho missionário no centro do estado. Escolheram implantá-lo em meio aos índios. Talvez almejasse também o governo o povoamento da região. Foi deste modo que, além das crianças bem nascidas, os missionários acolheram muitos curumins. Tinham a intenção de catequizá-los e educá-los dentro dos princípios e costumes dos cristãos. E por isso  cometeram um erro grotesco ao tentar mudar a forma de vida do silvícola que prima mais do que tudo pela sua liberdade e pelos seus ancestrais costumes. 
Cegos às primeiras constatações, quando se depararam com muitas dificuldades para retirar os pequenos índios das aldeias para levá-los ao internato, os italianos ainda desenvolviam periódicas caçadas aos curumins, e depois de conseguir alguns, quase pegos no laço, era os pequenos levados para longe do seu habitat. Essas crianças eram retiradas à força dos braços das mães, quase com requintes de violência.
A propósito disso, um dos frades italianos, em correspondência à família, Frei Celso Uboldo, tocou nesse aspecto. Reclamou da insegurança sentida quando das visitas às aldeias à cata desses pequenos aborígines. Na missiva enviada ele dizia que “nas incursões realizadas ultimamente obtive 42 meninos; seis dos quais fugiram, dois foram para o céu, e os demais aprenderam no instituto de uma maneira admirável. {...} mais de uma vez corri perigo de ser flechado, mas Deus salvou-me”. 
Mas nem o perigo que sabiam correr naquelas empreitadas, fizeram os religiosos refluírem dos métodos empregados na catequese. Os cronistas da época também acrescentam outras razões mais para o fato acontecido. Não vamos enveredar por eles, contudo, para não nos alongarmos mais ainda.
Os recém-chegados talvez considerassem o progresso obtido com alguns chefes indígena, como o maioral João Caboré, como exemplo de acerto no método, apesar de tudo. Pois o cacique ficou tão próximo deles que acabou por abandonar a crença indígena e adotar o catolicismo. Com isso, os velhos costumes foram abandonados e ele, substituindo uma tradição milenar dos da sua espécie, casou-se com uma só mulher, e no religioso. Abandonou as outras.
Mas isso não durou muito. O apelo aos velhos costumes falou mais alto e ele logo voltou a ter outras mulheres, como era comum entre os chefes índios. E com isso atraiu a ira dos capuchinhos que, certo dia, aproveitando-se de uma visita do chefe indígena ao povoado, aprisionaram-no e lhe impingiram muitos castigos físicos. Caboré, após a sua soltura, reclamou muito junto às autoridades barra-cordenses, e como não obtivesse resultado, chegou a empreender cansativa e custosa viagem até a capital, São Luís, para reclamar junto às autoridades pela violência sofrida por ele. O resultado foi o mesmo. Fizeram-lhe ouvidos de mercador.
Revoltado, Caboré retornou à região e passou a disseminar discórdia entre as outras tribos. Encontrou campo fértil. O aprisionamento dos curumins, por si só, já fizera seus estragos.
As notícias de que algo estava sendo tramado, chegou até ao convento, levadas por uma velha cunhã catequisada e já completamente aliada aos religiosos. Mas uma vez o inflado ego europeu fez com que suas admoestações fossem relegadas ao descaso. Então o mundo desabou sobre o portentoso arraial capuchinho.



Manhã de domingo, 13 de março de 1901, fazia um dia ensolarado e o céu se achava quase sem nuvens, quando os capuchinhos deram início à missa dominical. Celebrando o ato litúrgico, Padre Zacarias de Milengo. Foi nesse instante que a tempestade Guajajara se abateu sobre todos. Chefiando um grupo de enfurecidos guerreiros, João Caboré irrompeu na igreja e alvejou primeiro o padre Zacarias, que tombou mortalmente por sobre o altar. Depois foram sendo executados frei Salvador Albino, Frei Reinaldo de Paolo, frei Vitor de Bergamo, irmão Pedro de Paula, e as irmãs, Inês de Milão, Leonora de Torino, Maria de Gênova, Natália de Torino, Eufêmia de Torino e Ana do Maranhão, segundo descreveria mais tarde o jornal O Norte, periódico barra-cordense que circulava na época. Algumas crianças branca que estavam naquela hora na capela também foram trucidadas a golpe de tacape, flechadas e tiros de espingarda.
Enquanto isso, outros chefes lideravam grupos de índios pelo interior do convento e adjacências. A maioria das meninas ainda se encontrava deitada quando os indígenas irrompiam nos quartos e iam assassinando cada uma delas. Foi um espetáculo dantesco. A morte caiu sobre o povoado provocando uma onda de sangue da qual poucos escaparam, apenas os indígenas que àquela hora desempenhavam suas tarefas na comunidade. A memória popular conta que um dos atacantes tomou uma senhora das mãos de outro índio que intentava matá-la. Essa senhora seria uma espécie de mãe adotiva para o indígena. Esperançosa, a pobre mulher achegou-se a ele. Foi quando ouviu a seguinte frase: “a senhora é a minha mãezinha, vou lhe matar bem devagarzinho, viu?”. E consumou o ato perverso. Talvez essa história tenha saído do imaginário popular. Mas, depois do que aconteceu ali, nunca se sabe. 

Segundo as notícias do jornal O Norte, pereceram naquela manhã, cerca de 200 brancos. Mas a Beata Rubatto, italiana, que disse ter recebido notícias na época da madre superiora da ordem no Maranhão, afirmou que pereceram 261 pessoas. Foi o maior massacre de branco em todo o país, realizado pelos indígenas. A resposta, entretanto, foi desproporcional. Cerca de oitocentos índios acabariam mortos nos dias subsequentes. Mas o estigma gerou muitas mortes depois disto. Por anos a fio. Não dá para contabilizar o saldo da terrível carnificina acontecida na região do Alto Alegre, a que os capuchinhos italianos passaram a chama “Massacro di Alto Alegre- il batesimo di sangue”.
 



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