sábado, 10 de janeiro de 2015

UMA CASINHA DE PALHA, ASSIM TUDO COMEÇOU.

Imagem ilustrativa


                         José Pedro Araújo
O homem tinha o biotipo de um índio. Cabelos longos, barba rala num rosto queimado pelo sol causticante que cobria o sertão central do Maranhão naquele verão abrasador. Chegou, olhou e... ficou. Do rosto inquieto e amarelado saltava uns olhos amendoados e curiosos que buscavam um lugar ideal, um cantinho onde pudesse erguer o seu barraco. Logo, decidiu-se por uma pequena elevação do terreno, a coisa de quinze, vinte metros da água. Material para erguer a sua oca, não era problema ali. Perto abundavam espécies nobres de madeira, prontas para o uso. Era só amolar o machado e começar a luta para ter a árvore portentosa no chão. Uma aroeira madura, quase no fim da vida vegetativa, apresentava-se pronta para ser a forquilha central – aquela que recebe o peso da moradia e garante a sua segurança. A forquilha de canto, também achou a poucos metros dali, mesmo local de onde arrastou um tronco vistoso e longilíneo para servir de cumeeira. Cavou alguns buracos no terreno macio e fresco, ergueu e fincou as forquilhas, colocou os frechais nos encaixes, e começou a trabalhar para, na parte superior, colocar a peça de madeira que receberia o peso dos caibros. Pronto. Estava armado o arcabouço que receberia as palhas de babaçu que completaria o teto da primeira residência erguida no local que logo passaria a ser conhecido como Curador.
Depois o primeiro morador passou à tarefa de soerguer as paredes, de palha também, para evitar que algum animal peçonhento ou selvagem atacasse o construtor na calada da madrugada.  Próximo dali, uma lagoa piscosa mantinha-se placidamente aquecida pelos raios dardejantes do sol de estio. Oferecia também comida abundante ao visitante, para completar a dieta suprida por algumas caças silvestres que saciavam a sede nas águas da vetusta lagoa. Possuía, assim, o recém-chegado, garantia de segurança alimentar permanente naquele lugar intocado e preservado da ação de humanos.
Deve ter acontecido assim, na sequencia: aproveitando-se da terra dadivosa e do que a natureza oferecia para a construção da sua choupana, cuidou o nosso primeiro habitante de se preparar para o futuro, para os dias de completo isolamento e solidão. Não se sabe quanto tempo demorou até aparecerem outros moradores.
Quem era esse sujeito? De onde veio? Demorou-se muito por aqui ou a sua moradia foi efêmera? O certo é que o Curandeiro partiu em busca de outras plagas, foi-se a procura do desconhecido sem deixar endereço. Se a identidade do primeiro morador é ainda uma coisa um pouco nebulosa e cheia de indagações sem respostas, o nome da segunda pessoa que estabeleceu morada na região é também uma completa incógnita. Por conta disso, não podemos hoje prestar-lhes nenhuma homenagem, colocando uma placa em alguma esquina com o seu nome, pelo menos.
A única certeza que temos é que ele também lançou mão da madeira farta e das palmas luxuriantes das palmeiras de babaçu aqui existente para se abrigar do tempo e dos bichos que infestavam a região. Nada mais sabemos sobre ele. Deixou parentes entre nós, entretanto. Disso temos certeza. Mas, estes também nos são desconhecidos. Confesso que tenho verdadeira curiosidade de saber quem eram esses pioneiros. O segundo, o terceiro, o quarto morador. Depois do décimo morador, a localidade já se configurava um pequeno povoado. Foram abertos caminhos para os maiores centros urbanos da região, a custa de muito esforço para romper a mata fechada. E depois disto, mais pessoas passaram por aqui, enquanto que alguns foram logo aproveitando as terras livres e desimpedidas para situarem pequenas fazendolas e criar um gadinho pouco. As clareiras começaram a ser abertas na mata imponente para dar lugar ao plantio do milho, da mandioca e do feijão, que logo receberia a companhia de outro cereal que, em pouco tempo, estaria presente em todas as mesas: o arroz.
Quem eram essas pessoas, não sabemos ao certo. Mas, de onde vieram, pelos menos a sua maioria, isso nós sabemos: eram quase todos nordestinos tangidos pela calamidade da seca que, ciclicamente, se abate sobre fração considerável desta terra de contrastes. Eram, especialmente, cearenses e piauienses, dos dois estados mais próximos. Outra certeza, é que traziam consigo poucos pertences e nenhuma riqueza. Ao invés disso, vinham imbuídos de uma vontade férrea de assentar moradia e amealhar riqueza na ubérrima região do Japão maranhense. E traziam ainda uma certeza: nunca mais padeceriam da falta de chuvas, da seca que destruía tudo o que conseguiam semeavam com grandes sacrifícios. Nem teriam que replantar por tantas vezes a semente do legume que enterravam no solo, e que depois se multiplicava e enchiam os paióis até o teto.
O gado não mais morreria de sede, nem as montarias minguariam até não poderem mais carregar nada sobre si, nem mesmo o seu próprio peso. Haviam encontrado o seu oásis pleno de oportunidades nas terras dadivosas deste sertão central do Maranhão.
O local também virou ponto de passagem. O caminho que partia de Barra do Corda para Caxias ganhou um novo traçado. Já não era mais preciso ir acompanhando o leito sinuoso do rio Mearim, que dificultava sobremodo a viagem quando o período das grandes chuvas chegava e inundava tudo, impedindo a passagem por longos dias. O caminho agora era feito pela espinha dorsal do estado, reto e sempre em frente. Sabiam também os viajantes que logo na frente, encontrariam guarida no novo povoado que se formava entre a lagoa do Curador, o riacho Firmino e o rio Preguiça. Os grandes estirões que duravam dias a fio, agora estava interrompido por aquela comunidade que aumentava a olhos vistos e a medida que o tempo passava. Já era possível ver que uma ruazinha tortuosa subia célere rumo ao topo de uma elevação que distava cerca de mil metros da margem da lagoa. E que lá no alto, logo alguém se propôs a construir uma rudimentar capela em intenção a São Bento, decisão tomada no sentido de buscarem proteção contra a presença das numerosas serpentes que infestavam a região.
Sobre o cume daquele monte, passou-se a construir algumas habitações também. O povoado ganhava jeito de vila, corpo de vila. Pobre, é verdade, mas sempre receptivo e acolhedor, um ponto de apoio para a grande travessia.
Quando d. Zezé (Maria José Nunes Barros) veio acompanhar os pais que já estavam com uma fazendinha instalada nas margens da Lagoa de Pedra, assombrou-se com a pobreza do lugar: apenas dezessete pobres casebres de palha ocupavam a ruazinha que nascia com extensos quintais protegidos por cercas de faxina? Os olhos da menina de onze anos fitavam a viela que passou a se chamar Rua Grande, e depois, muito depois, Magalhães de Almeida, com grande curiosidade. Foi testemunha ocular do seu desenvolvimento. Vi muitas vezes o semblante da octogenária senhora se encher de saudade quando relatava tal passagem da vida da nossa querida comunidade. Ela acompanhou por longos noventa anos o esforço da pequena vila até atingir a sua maioridade. Foi privilegiada espectadora quando ela foi alçada a condição de cidade sede. E também a primeira bodega abrir as suas portas. Encantou-se com a construção da primeira casa de tijolos e cobertura de telhas no largo que mais tarde homenagearia o santo guerreiro, São Sebastião.
Assim, passaram-se os dias, chegaram novas famílias – sempre enviadas pela seca que castigava o nordeste central – e estas traziam consigo novidades dos centros mais desenvolvidos. De Pastos Bons e Barra do Corda também vieram muitas, atraídas pela qualidade das terras do Japão. Essa mistura de raças deu causa à formação dos troncos familiares do Curador. Somos o resultado dessa miscigenação profícua: branco com negro, negro com índio, índio com branco. Puro caldeamento.

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