sábado, 21 de fevereiro de 2015

Bico do Papagaio – Berço dos conflitos agrários no Brasil






Os conflitos pela posse da terra se arrastam até os dias de hoje no Brasil e, pelo andar da carruagem, não tem data próxima para acabar. Se hoje o assunto divide as pessoas em prós e contras em apaixonado debate, imagine-se o que acontecia lá pelo final da década de 70, quando os militares ainda estavam no poder e abominavam qualquer forma de protesto. O chamado Bico do Papagaio é uma região de solos fertilíssimos, e florestas luxuriantes, encravada entre os rios Tocantins e Araguaia, no norte do estado do Tocantins. A partir dos anos sessenta, e posteriormente à abertura da transamazônica, milhares de famílias de trabalhadores rurais, a maioria expulsa de suas terras nordestinas pela seca inclemente, escolheu essa região de terras férteis e água em abundância para se situarem.

O exuberante rio Araguaia corre à esquerda do Tocantins por centenas de quilômetros no rumo norte até entrar neste último em um ângulo que vai se fechando à medida que um se aproxima do outro. E o desenho formado na aproximação desses dois imensos drenos fluviais, toma um aspecto da cabeça e, finalmente, do bico de um papagaio. Por isso o nome com que a região passou a ser conhecida. E dentro dessa Mesopotâmia, milhares e milhares de hectares de terra boa para o plantio de gêneros alimentícios, mas também para a criação de animais, passou a ser alvo de sangrenta disputa.  

No final dos anos setenta se estabeleceu na região um religioso italiano chamado Nicola Arpone. Enviado pela CPT para prestar assistência aos trabalhadores rurais acossados pelos fazendeiros e grileiros que ocupavam desordenadamente a região, o religioso logo organizou as comunidades rurais para a defesa de suas posses. Como parte da sua estratégia, passou a estimular a formação de grupos de pessoas que vivam na periferia de São Sebastião do Tocantins, Augustinópolis, Sampaio e Buriti, para procederem à ocupação dos grandes latifúndios existentes na região. Essas terras, normalmente em poder de grupos econômicos de fora do estado, vivam praticamente sem nenhuma exploração e em total descumprimento da sua função social. E por conta dos graves problemas fundiários ali existentes, o governo declarou sub judice uma extensa faixa de terra que ia desde São Sebastião do Tocantins, situado bem no Bico do papagaio, a Porto Nacional, englobando milhões de hectares. O ato suspendia a validade dos registros de todas as terras da região, em razão da grande quantidade de títulos falsos de terra que circulava na região. Os tais grileiros imperavam na região, e a comercialização de terras tomou impulso sem precedentes.

Nicola Arpone se servia da igreja do município e das capelas erigidas nas outras comunidades, para reunir os trabalhadores ao término da missa. A notícia sobre as ações do religioso se espalharam rapidamente e logo a reação dos grandes proprietários e latinfundiários sobre as autoridades constituídas começou a surtir efeitos. Certo dia, quando os sindicalistas faziam uma reunião no povoado Sampaio, um helicóptero do exército sobrevoou o local e disparou rajadas de metralhadoras no largo fronteiriço à capela. Houve grande correria e desespero. Dizia-se na época que mulheres perderam crianças e que muitos velhos morreram de ataque cardíaco. Essas notícias faziam parte da política de informação e contra informação dos envolvidos no conflito que se iniciava. Mas, o certo é que o desespero foi grande naquele dia.  

Retrocedo um pouco no tempo para dizer que cerca de um mês antes deste relato, estive em São Sebastião do Tocantins para observar a movimentação dos ditos sem terra. Num dia de sábado, desloquei-me para o município acima referido para levantar informações sobre as ocorrências que eram de interesse do INCRA. Fui escolhido exatamente porque era um dos mais novos na repartição, e um desconhecido para os sindicalistas da região a ser visitada.   

Chegamos cedo à cidade e, como já havíamos previamente acertado com algumas pessoas conhecidas, nos dirigimos ao rio para tomar banho. O local escolhido foi uma “coroa” no meio do rio, onde algumas pessoas já se encontravam. Conduzíamos um isopor com algumas cervejas e refrigerantes. Era a nossa parte da brincadeira. Aos nativos coube a tarefa de apanhar o peixe no rio e preparar o tira-gosto. Tomei conhecimento naquele dia de uma iguaria muito apreciada pelos ribeirinhos: a carne de uma tartaruga chamada Tracajá. Mas a forma de preparo do quelônio me afastou dele. Pegava-se o bicho vivo, sangrava-o e, em seguida, sem retirar suas vísceras, ele era colocado com o casco para baixo para assar sobre uma fogueira acesa. Depois de considerado pronto é que ele era aberto e tinha as vísceras extraídas. Na cavidade formada, após a retirada das vísceras, ficava um liquido esverdeado. Repugnou-me aquilo. Não conseguiu comer nem um naco da carne branca do anfíbio. Os colegas de farra riram a valer do meu escrúpulo e diziam que eu não sabia o que estava perdendo. Sobrou mais para eles do petisco que comiam com indisfarçável prazer.

Mas o meu objetivo ali era outro. Bebi pouco e comi menos ainda.

À tarde, por volta das duas horas, parte da população acorreu ao templo católico para assistir à missa. Fomos também. O traje não era muito adequado e, por isso, chamamos muito a atenção dos circunstantes. A missa continuou, contudo. Terminada a parte litúrgica daquela tarde, começou a reunião dos presentes com o pessoal do sindicato. O palestrante daquela tarde seria o famoso Nicola Arpone, além de duas religiosas que lhe faziam companhia sempre. Acredito que francesas também. Mal começou a reunião, e o esperto religioso logo deu pela nossa presença. E então mudou completamente o discurso. Até o término do encontro só se ouviu mensagens religiosas. Uma frustração. Voltei para Araguatins sem ouvir o tal discurso inflamado que se afirmava ser a tônica das reuniões do religioso com a comunidade.

22 de julho de 1979. Manhã de domingo. Um mês depois. Um helicóptero militar de tamanho avantajado, com uma metralhadora, também de dimensões assombrosas, apontada para fora da aeronave, baixa de repente na praça em frente ao prédio do INCRA em Araguatins. E em meio à poeira levantada, um grupo de militares desembarca dele conduzindo três pessoas algemadas. Já no interior do prédio todos se dirigiram para a sala do executor, chefe do projeto fundiário. E lá procederam ao interrogatório dos prisioneiros.

A imagem de um dos homens que permaneceu no helicóptero, lá fora, era de botar medo. Segurando a metralhadora com suas possantes mãos, o indivíduo encarava a plateia que ia se formando como se fosse disparar a arma a qualquer momento. O homenzarrão tinha o rosto pintado de preto e vestia-se com roupas camufladas de combate, e do rosto saltavam dois olhos vermelhos e ameaçadores. Como se para ampliar o ambiente dantesco, a aeronave continuava com os motores ligados enquanto o restante do grupo se mantinha com os prisioneiros no interior do prédio. A barulheira era infernal, e a poeira tornava o ambiente lúgubre.  

Nunca tive a curiosidade de perguntar para o executor do projeto se tinha havido um contato prévio dos militares com ele. Mas é bem provável que sim, pois quando os homens chegaram, já estávamos na frente da repartição para recebê-los. Poucas pessoas receberam permissão para entrar no prédio naquele domingo. Reconheci entre os três homens conduzidos algemados, o presidente do Sindicato Rural de São Sebastião e o Secretário da entidade. Os três estavam com um aspecto lastimável, pareciam ter sido judiados no rápido trajeto aéreo entre São Sebastião e Araguatins.

Reiniciado o interrogatório, os militares perguntavam-lhes, insistentemente, pelo paradeiro de Nicola Arpone. Nesses momentos os homens negavam saber onde o religioso se encontrava, e recebiam safanões em troca. Depois de alguns momentos de profunda consternação ao vermos a sede da instituição sendo utilizada para outras finalidades menos nobres, vi quando um dos militares aplicou um telefone com as duas mãos em forma de concha nos ouvidos do presidente do sindicato. O golpe surdo me causou revolta e principiei um protesto. Mas rapidamente fui convidado a me retirar do recinto. Recebi ordens para ir para casa.  

Parece que a secção de torturas fez efeitos, pois logo a aeronave levantou voo com todos os que nela haviam chegado. Somente depois, ficamos sabendo que voaram em direção à cidade de Wanderlândia, situada nas margens da rodovia Belém-Brasília.

Lá conseguiram capturar e aprisionar o religioso, retirando-o da casa paroquial. O assunto tomou conta do noticiário nacional e ganhou as páginas da imprensa mundial. Mas, apesar da CPT e da CNBB pressionarem as autoridades pela libertação do religioso italiano, não se sabia ao certo o seu paradeiro. As informações chegadas até nós eram de que o italiano estava sendo levado de um lugar para o outro da floresta enquanto era torturado. Queriam que ele emitisse informações sobre o movimento organizado por ele no Araguaia.

Precisamos lembrar que poucos anos antes, essa mesma região foi alvo de um movimento armado que ficou conhecido como Guerrilha do Araguaia. Dezenas de pessoas perderam a vida em decorrência dos combates entre as forças do governo e os ditos revolucionários. O receio do governo, portanto, era que o problema voltasse novamente a ocorrer, agora sob o disfarce de uma luta pelo acesso à terra. O tempo se encarregou de mostrar que o movimento ali iniciado tinha como objetivo apenas a luta pela ocupação de milhares e milhares de hectares de terras usurpadas por grileiros de todos os lugares que iniciavam uma corrida rumo ao norte do país. E que, enquanto isso, os pequenos trabalhadores rurais que já vinham desbravando a região há tantos e tantos anos, passaram a sofrer pressão para abandonarem a região que haviam desbravado à custa do suor e do sangue dos seus familiares. Região inóspita e insalubre que agora virara objeto da ambição de fazendeiros e madeireiros de todos os cantos do país.


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