terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A Fábrica de Laticínios do Dr. Sampaio









            Constitui-se em mais uma epopeia sertaneja das mais belas a construção de uma fábrica de laticínios nos sertões profundos do Piauí. Denominada de Fábrica de Laticínios dos Campos, o empreendimento localizava-se em terras pertencentes ao conglomerado das fazendas nacionais, na parte pertencente ao município de Oeiras, hoje Campinas do Piauí. O dono do negócio, Antônio José de Sampaio, engenheiro químico, piauiense de Livramento, hoje José de Freitas, formado em universidade da Suíça, vislumbrou instalar uma fábrica de beneficiamento de leite naqueles locais ermos com o fito de aproveitar-se do potencial pecuário ainda existente nas fazendas nacionais. A ideia deve lhe ter surgido ao observar as vaquinhas Pardo-Suíça pastando mansamente nas encostas das montanhas daquele país, carregando seus gigantescos chocalhos no pescoço, ou nas incontáveis mini-indústrias de fabricação de queijo e manteiga instaladas nas pequenas comunidades rurais espalhadas por aquele país montanhoso, mas acessíveis.
De outra parte, instalar uma fábrica em região tão adversa, constituía-se em tarefa das mais difíceis e problemáticas.  O local escolhido distava 104 quilômetros de Oeiras. Nada disso, porém, esmoreceu este homem de vontade férrea e ideia progressista.  
            Levada a ideia à administração estadual, Dr. Sampaio encontrou alguma receptividade, mas, também, muitos adversários ao seu projeto. Os debates foram acirrados e chegaram até a Câmara Federal, no Rio de Janeiro. Não resta dúvida que a proposta tinha aparência de negócio entre compadres, uma vez que previa a cessão por parte do governo imperial de parte das terras das Fazendas Nacionais, juntamente com todo o efetivo animal que existia nelas.  Pelo contrato assinando em 26.04.1889, Dr. Sampaio receberia as 17 fazendas dos Departamentos de Nazaré e Canindé (subdivididas por ele em 24 propriedades), munidas de todos os equipamentos existentes nelas e todo o seu efetivo pecuário, calculado em 17.000 bovinos e 1.507 equinos, durante um período de 9 (nove) anos.  Esta, entretanto, foi a primeira tentativa real de uma ocupação dirigida implementada no estado, uma vez que entre suas cláusulas principais do arrendamento existia a obrigatoriedade do contratado “fundar um ou mais núcleos coloniais formados de nacionais e estrangeiros, sendo metade, pelo menos, de estrangeiros, mantendo à sua custa o Estabelecimento Rural de São Pedro de Alcântara com o fim de acolher libertos menores e dar-lhes instrução primária, artística, industrial e zootécnica”.
            Deveria ainda criar e manter à sua custa uma estação meteorológica, desenvolver em grande escala a criação de gado lanígero e introduzir outras espécies; mandar vir da Europa às suas expensas, pessoal habilitado para o preparo dos produtos e montar um estabelecimento para abater o gado e preparar carne seca (charque), além de, é claro, montar a fábrica de laticínios e desenvolver lavouras de cereais. Desembolsaria anualmente ainda, pela utilização do patrimônio, a quantia de 20 contos de réis. Uma fortuna para a época. Deveria ainda, em prazo exíguo, realizar o inventário de todo o rebanho existente nas fazendas naquele momento. Esta última exigência lhe traria terríveis dores de cabeça, dada às dificuldades que enfrentaria para contar um rebanho numeroso e disperso em várias e extensas propriedades, em um período de seca devastadora.
            O contrato consignava textualmente que o arrendatário iniciaria o pagamento pelo aluguel dos bens contratados, quando estivesse em pleno uso e gozo daquele patrimônio. E mais, como o rebanho era a parte mais valiosa dos bens recebidos, somente após a sua contagem final e ferra, estaria concretizada a posse em definitivo dos bens. A empreitada levou dois anos para ser concluída, em razão das enormes dificuldades que o trabalho encerrava, mas, também, por negligência e sabedoria do arrendatário.
Acontece que os ventos da política nacional estavam mudando. No mesmo ano em que Sampaio assinou o contrato de arrendamento, estabeleceu-se a república no país, ocasião que muitos dos seus inimigos se utilizaram para voltar à carga, obtendo êxito inicial. Alegando quebra de contrato, por falta de pagamento de duas parcelas do aluguel já vencidas, o Ministro Tristão Alencar Araripe rescindiu unilateralmente o contrato firmado, em 09 de abril de 1891, e determinou que as terras fossem postas em leilão imediatamente, no que pese existirem documentos emitidos pelos funcionários da fazenda pública afirmando que o arrendatário ainda não havia entrando em plena posse e uso dos bens. Com muito custo, pressões políticas e um alentado e bem consubstanciado documento enviado ao Presidente da República, Marechal Floriano Peixoto, o contrato das fazendas estaduais seria retomado. Corria já o ano de 1893. Passara-se dois anos desde o atrapalhado ato de cancelamento do contrato.
            Ao governo, caberia o repasse das terras e do gado, mas também havia uma cláusula que previa a venda das fazendas ao arrendatário ao término do contrato por 400 contos de réis, além de proporcionar a vinda de 500 imigrantes estrangeiros. 




            No dia 09 de abril do ano de 1897, a fábrica foi inaugurada com a presença das mais expressivas autoridades civis e eclesiásticas da época. Mas, antes fora preciso investir vultosa soma de recursos próprios para adquirir os equipamentos e maquinários diretamente na Suíça, e realizar também o seu custosíssimo transporte até o local escolhido. A imensa caldeira, e todo o resto da engrenagem da usina de pasteurização, foram desembarcados no litoral piauiense e seguiram em embarcações menores até o porto fluvial de Colônia, onde hoje se localiza a cidade de Floriano, nas margens do rio Parnaíba. Era preciso, entretanto, empreender o restante da viagem por terra, num trecho de cerca de 240 quilômetros. O transporte deste pesado material envolveu uma logística de guerra, uma vez que não havia estradas e, para empreender a travessia dos rios Itaueira e Canindé, foi preciso até mesmo construir pontes de madeira a fim de que os carros de boi pudessem transpor estes obstáculos naturais. A operação durou várias semanas até que o material chegasse ao destino final. Somente o transporte do maquinário já daria matéria primária para a redação de um bom livro de aventuras.
Em seu livro, Maranduba, a autora Odete Vieira da Rocha afirma que “o Dr. Sampaio trouxe da Suíça um carroção de ferro e engatou em juntas de bois e mandou cobrir a estrada com milhares de couros de bois para que o carroção pudesse deslizar com a caldeira. Sem exagero, só no transporte da caldeira morreram mais de mil juntas de bois, de espinhaço quebrado, golfando sangue. Não andavam dois metros e caíam arrebentados”. Há aqui, naturalmente, um pouco de fantasia e exagero na recuperação da memória daquela epopeia. Mas, sem dúvidas nenhuma, muitos bois de carro devem ter perecido no trajeto. Os exageros, contudo, servem para glamourizar mais ainda o feito notável daquele bravo piauiense.
            Para a elaboração do projeto e a construção do prédio da fábrica, foi contratado o engenheiro alemão Alfredo Modrack, responsável por muitas obras importantes neste país, como também pela elaboração da planta e pela construção do prédio do Teatro 4 de Setembro, em Teresina. É possível constatar pelo menos uma viagem de Modrack para a região. Em documentos apresentados por Sampaio quando recorreu da rescisão do seu contrato com o governo, foi apresentada relação de despesas efetuadas por ele. E entre estes, um documento emitido pela Companhia de Navegação a Vapor do Rio Parnaíba no qual o engenheiro responsável pela obra de construção do prédio da fábrica de laticínios embarcou com destino à Colônia no vapor Santo Estevão, no dia 1º de agosto de 1890, ao custo de 33$900 réis. Ocupava, segundo o documento, as melhores posições na embarcação, localizando-se à ré do vapor.
            A tarefa de construir um edifício naqueles sertões também não era nada fácil, visto que até mesmo os tijolos que seriam utilizados na elevação das paredes do prédio tiveram que ser preparados nas imediações da obra, com barro trazido de um local distante. A mesma coisa aconteceu com a água utilizada na sua preparação, e na construção em si. Mecânicos foram trazidos de fora para a montagem das máquinas e da caldeira, como um velho italiano chamado João Monte Santo (abrasileirando, naturalmente). Mas, apesar de todos esses percalços, a obra foi concluída e a fábrica entrou em operação.



Operários especializados na fabricação do produto final foram também trazidos de fora. Até mesmo um grupo de 40 italianos chegou a ser levado até o estabelecimento rural, na Colônia. Destes, a história aponta que a metade se negou a ficar em um local tão distante da civilização e com clima tão seco e quente, após a morte de cerca de quinze crianças por difteria. Os que ficaram, especialistas na produção de queijo e manteiga e na operação das máquinas, contribuíram para a capacitação dos outros operários nativos. 





            A indústria instalada, que chegou a ser a maior da América Latina neste seguimento, em que pese oferecer produtos de alta qualidade, passou a sofrer dificuldades para colocar a produção no mercado em razão da sua localização pouco estratégica e do mercado local muito pequeno. Em meados dos anos 40, após sucessivas mudanças de mão, as máquinas foram desligadas e a fábrica fechou suas portas. Findava assim, tristemente, um empreendimento que reunia ali todas as esperanças dos piauienses por melhores dias para aquela região pobre e desassistida.

Um comentário:

  1. Foi um grande sonho. O dr. Sampaio certamente reencarnou no nosso contemporâneo Alberto Silva, que felizmente, conseguiu realizar alguns de seus sonhos.

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