quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

FRANCISCO DE PAULA RIBEIRO – o devassador dos sertões de dentro


José Pedro Araújo


            Poucos personagens foram tão importantes na história da colonização do Maranhão quanto o major Paula Ribeiro. E quando se trata do devassamento do interior maranhense, ai ele é, indubitavelmente, a personalidade mais importante de todas, deixando registrada a maior parte das suas ações para a posteridade. Militar pertencente às tropas imperiais portuguesas, Paula Ribeiro serviu no Maranhão por longos 28 anos, chegando aqui por volta de 1795. Militar brilhante, desempenhou serviços de todas as naturezas, desde a função puramente policial - ocasião em que fez inúmeras diligências contra e a favor dos nativos -, mas também ações de natureza diplomática, como quando serviu ao Estado como chefe da representação que negociava a demarcação dos limites entre as províncias de Goiás e do Maranhão.

          Causa verdadeiro fascínio ler uma espécie de diário escrito por ele durante os 91 dias que levou para ir de São Luís do Maranhão até à vila de São Pedro de Alcântara, hoje cidade de Carolina. Com um nível de detalhamento primoroso, ele vai descrevendo diariamente o trajeto percorrido, os acidentes naturais encontrados, córregos, rios, nascentes, as fazendas já situadas e o nome de seus proprietários. Não apenas isto, mas, também, as distancias percorridas naquele dia e “a imensa variedade dos preciosos produtos nas classes dos três reinos da natureza”, como bem determinou o Governador do Maranhão, Paulo José da Silva Gama, nos idos de 1815.

            Recentemente, grandes estudiosos da história maranhense, como o Professor João Renôr de Carvalho e o historiador Adalberto Franklin (trabalho também levado ao público pela Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão), resgataram a história do nosso aguerrido herói português, lançando um rebuscado e detalhado trabalho com os seus principais feitos. Trata-se de anotações cuidadosamente coletadas e recheadas de informações importantes sobre a situação do interior maranhense naquela época. Se não fosse pela importância das informações repassadas por uma testemunha ocular, ainda assim as suas anotações seriam reluzentes pérolas a retratar o desbravamento do interior da província, se levarmos em conta que os principais historiadores da época não repassaram muitas informações sobre o hinterland maranhense. Estudiosos como o frade Francisco de Nossa Senhora dos Prazeres, com o seu Porambuda Maranhense (Relação Histórica da Província do Maranhão, publicado pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em abril de 1850),  Bernardo de Berredo, em Anaes Históricos do Estado do Maranhão ou até mesmo o nosso maior historiador, César Augusto Marques, com o alentado Dicionário Histórico-Geográfico da Província do Maranhão, narrando os primórdios da nossa colonização, foram tão importantes nas suas narrações quanto o grande militar português. Não como testemunhas ocular, contudo.

      Após compulsar todo o material bibliográfico encontrado, somente achei informações minuciosas sobre a região compreendida entre os rios Mearim, Itapecuru e Flores, pedaço escondido e precioso do solo maranhense, nos escritos deixados por Paula Ribeiro. Mais tarde, os irmãos, Parsondas e Carlota de Carvalho, dedicaram-se a escrever sobre os Sertões de Dentro.  

Paula Ribeiro, deixou registrado o relato de uma viagem que fez à região onde mais tarde se situaria o Curador, à frente de um grupo de milicianos, com o propósito de realizar uma devassa na região e colher informações detalhadas sobre ataques perpetrados por cidadãos das vilas de Caxias e Pastos Bons contra índios Txocamekrás(Timbiras), com escusos propósitos de vendê-los como escravos. Em documentos de época, encontrados no Arquivo Público do Maranhão, identificamos uma atividade sem descanso desse desbravador que cobria toda a região interiorana da província. Nesses documentos, também é possível verificar que, em decorrência dos tempos violentos em que viveu, por diversas vezes teve que responder à altura aos ataques dos índios, ocasião em que muitos foram exterminados. Mesmo assim, o major português enfrentou os poderosos da época em defesa desses mesmos gentíos, pondo em risco a sua própria carreira. Tratava-se, portanto, de uma figura à frente do seu tempo, cuidadoso com a integridade física dos primeiros ocupantes do nosso território, os silvícolas, sem deixar de cumprir com extrema fidalguia e responsabilidade as missões a ele confiadas.

Fiel ao seu compromisso com el-Rei e ao seu país, o nosso grande sertanista se pôs ao lado dos que lutavam contra o movimento emancipacionista. Dedicado ao serviço do Rei D. João VI, não aceitou servir a outros senhores, preferindo deixar o Estado e o País e retornar à sua terra natal, Portugal. Não conseguiu lograr êxito na sua tentativa, contudo. Foi perseguido e abatido por um dos inúmeros inimigos que fez quando em defesa dos indígenas, contra o assédio de inescrupulosos indivíduos que tinham como principal profissão, o aprisionamento e a comercialização desses aborígines. Mas eram esses os novos senhores desta terra.

Navegava Paula Ribeiro pelo Tocantins - rio sobre o qual foi um dos primeiros a descrever com impressionante nível de detalhes -, rumo a Belém, por onde tencionava embarcar para a terra natal, quando foi assaltado e se entregou ao vencedor. Adesistas de última hora foram seus algozes. César Marques, sobre quem já falamos acima, descreveu assim seus últimos momentos de vida:
“Antes de chegarem a pastos Bons, na beira do rio Balsas, no lugar denominado Fazendinha, o miserável José Dias covardemente mandou assassinar Paula Ribeiro e o capelão (também preso no mesmo momento que ele), desejoso de alcançar os dezoito mil cruzados que se dizia possuírem esses dois infelizes! Assim ficaram as palmas de vitória dos independentes para sempre manchadas com a indelével nódoa da infâmia!”.

2 comentários:

  1. Lendo diariamente suas publicações, em breve seus leitores estarão obtendo graduação com louvor em história do Maranhão. Como sempre, o conteúdo é excelente e de agradável leitura.

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    1. Obrigado, bom amigo! Sei que você também gosta de escrever. Deve ter muitas coisas guardadas. Quero publicar aqui.

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